Gottardello
Nissan Magnite ganha mais chances de ser lançado com a chegada de Ricardo Gondo
Novo presidente da subsidiária brasileira pode estar preparando o terreno para a nacionalização do Magnite, um mini-SUV abaixo de R$ 100 mil

Nissan Magnite (Divulgação)
Os bastidores do setor automotivo são muito parecidos com os do futebol e isso pode ser facilmente notado, quando as coisas não vão bem. Da mesma forma que a direção de um clube que está ameaçado na tabela costuma assegurar que o treinador segue prestigiado, antes de demiti-lo poucas horas depois, as montadoras costumam negar, além de ocultar, aquilo que é uma obviedade para quem cobre a indústria.
No caso da Nissan, a assunção de Ricardo Gondo como novo presidente da subsidiária brasileira pode significar uma guinada salvadora, revertendo a curva descendente que, nos últimos 15 anos, mostra uma queda de quase 40% nas vendas nacionais da marca (de 70 mil unidades, entre janeiro e julho de 2012, para 43,4 mil unidades, no mesmo intervalo deste ano).
“A fábrica de Resende (RJ) terá um novo filho”, adianta o ‘chairman’ da Nissan Américas, Christian Meunier, deixando o novo produto a cargo da imaginação. “A produção nacional é um fator-chave para nós”, completa.
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Por aqui, a grande jogada seria repetir aquilo que deu certo com a Renault: a nacionalização de um modelo desenvolvido para o mercado indiano, no caso o miniSUV Magnite, nos mesmos moldes do que ocorreu com o Kwid. Como ocorre no futebol, a possibilidade, que chegou a ser dada como certa há dois anos, será negada – mesmo que uma nova linha de montagem estivesse prontinha. O arranjo demandaria, inclusive, uma parceria industrial entre a Nissan e a Renault brasileiras, já que o Magnite é montado sobre uma versão esticada (CMF-A+) da mesma plataforma usada pelo Kwid.
Na Índia, o miniSUV parte de ₹6,20 Lakh (o equivalente a inaplicáveis R$ 33,6 mil) e chega a ₹9,80 Lakh (o equivalente a menos de R$ 53,2 mil). Por aqui, ele se posicionaria abaixo do Kait (a partir de R$ 118 mil), numa faixa ligeiramente abaixo dos R$ 100 mil, valor mais do que convidativo para um mercado que, hoje, tem apenas três modelos “populares”: o C3 (a partir de R$ 77,2 mil), da Citroën, o próprio Renault Kwid (a partir de R$ 78,6 mil) e o Fiat Mobi (a partir de R$ 82,5 mil).
“Da experiência global da Nissan no desenvolvimento de SUVs que integram soluções capazes de atender às necessidades dos consumidores latino-americanos, fortaleceremos nossa participação neste segmento crescente e altamente competitivo”, afirma o presidente e diretor geral da Nissan América do Sul (NSAM), Guy Rodríguez, dando a deixa de que pode haver espaço para o caçulinha na família composta por Kait, Kicks e pelo o novo X-Trail, que será importado a partir de 2027.

Ao contrário do que se pode imaginar, a comutação da linha da montagem de um com o outro não é um problema, mas a solução para a queda na demanda do Kwid – de 48,5 mil unidades, entre janeiro e julho de 2019, para 34,9 mil unidades, neste ano. É que, na Índia, país de origem de ambos, eles dividem a mesma linha na fábrica da Renault-Nissan Alliance de Oragadam, próxima a Chennai, junto com outro Renault, o Kiger – cotado, inclusive, para suceder o subcompacto feito no Brasil.
Por aqui e diante do trio composto por C3, pelo próprio Kwid e pelo Mobi, o Nissan Magnite poderia chegar às lojas por R$ 99.990 que, ainda assim, teria um poder de atração inquestionável.
Um trunfo óbvio
Quando Ricardo Gondo assumiu a presidência da Renault brasileira, o Kwid já tinha quase dois anos de nacionalização, mas foi durante sua gestão que o subcompacto alcançou seu recorde comercial: mais de 85 mil unidades, em 2019. Agora na Nissan, Gondo tem a missão de potencializar as vendas da dupla formada pelo Kait (a partir de R$ 118 mil), que substituiu a primeira geração do Kicks, e pela nova geração Kicks (a partir de R$ 160 mil), mas a ofensiva chinesa pede que ele vá além, agindo como um executivo chinês. E isso não se limita a agilidade e prontidão para reagir às demandas do mercado.
“O Kait, por exemplo, é um produto para exportação, destinado a mais de 20 mercados latino-americanos, e a Nissan brasileira tem uma vocação transformadora”, sublinha o chefão Christian Meunier, que foi presidente da subsidiária nacional. A transformação completa pode ocorrer com a nacionalização do Magnite, que já é ofertado em mercados da América Latina, posicionado abaixo do Kait e do novo Kicks. No México, por exemplo, ele aparece entre os cinco líderes de vendas do país.
A guerra de preços que já está em curso, no Brasil, exigirá mais competitividade das marcas tradicionais, para manterem suas fatias e seus volumes. E nesse sentido, diante da consolidação e até mesmo da ampliação da liderança dos utilitários-esportivos no mercado brasileiro, ter uma opção de entrada nesta categoria, um miniSUV digno da chancela, é um trunfo de que não se pode abrir mão. A Nissan mataria dois coelhos com uma cajadada: teria o produto mais novo e mais em conta no nicho dominante.
Apesar de a chegada do Magnite, por mais óbvia que pareça, ser tratada como uma suposição, nunca é demais lembrar que o recente aporte de quase R$ 3 bilhões em Resende (RJ), muito incensado apesar de representar módicos US$ 575 milhões, não tem o condão de preparar a planta fluminense para produtos mais sofisticados. Por outro lado, a Renault tem uma capacidade ociosa de pelo menos 40% em São José dos Pinhais (PR), onde acomodaria o primo indiano sem problemas. Agora, é esperar para ver!















