Arquivo Terra
Técnica: como funcionam as asas de um carro de Fórmula 1

As asas que, além do apoio aerodinâmico, geram discórdia.
Começo este texto com uma frase clássica do meu repertório, que, de tanto ser usada, está bem puída (mas sempre funciona): asas para que te quero! É uma velha máxima militar que diz que uma guerra não se vence no campo de batalha. E podemos adaptá-la ao esporte a motor, afinal, uma corrida não se vence só na pista.
Não basta somente ter o melhor piloto. É preciso ter o melhor carro, a melhor equipe e os melhores elementos. Neste ponto, a interpretação das regras faz parte da equação. Uma brecha pode ser o caminho para o ganho de desempenho que fará a diferença. Por isso mesmo, o regulamento tenta ser cada vez mais restritivo, para desestimular uma “corrida desenvolvimentista” e levar os gastos às alturas.
Nesse contexto, chegamos às famosas asas flexíveis que entraram na pauta da temporada 2021 da F1 desde a etapa de Barcelona. O tema não é tão novo assim. A Red Bull “brincou” com este assunto na temporada de 2011 na dianteira e foi um dos grandes diferenciais para que a equipe pudesse ganhar o campeonato naquele ano, com os carros tendo um ótimo desempenho dinâmico e compensando uma parte da falta de potência do motor Renault. O recurso definitivamente colocou o tema em discussão. Tanto que, desde então, os F1 passam por testes de flexibilidade nas asas.
Leia também
Em um cenário onde qualquer milésimo de segundo conta, as equipes investem nesta flexibilidade. O seu funcionamento ficou claro quando as câmeras mostraram a Red Bull de Verstappen na reta de Barcelona. Com a força aerodinâmica, os aerofólios cedem para baixo, funcionando como uma versão reduzida do DRS, o que propicia maior velocidade nas retas a partir de um determinado ponto.
A proibição de que os aerofólios não poderiam se mexer remonta do final da década de 1960, quando a movimentação das peças começou a afetar a segurança. Hoje, o regulamento é claro ao proibir qualquer peça aerodinâmica móvel, com exceção do DRS (Drag Reduction System – Sistema de Redução de Arrasto), no aerofólio traseiro. Só que a FIA tem seus caprichos.
Tudo é proibido, mas ela deixa algumas possibilidades para que as partes fixas tenham algum tipo de flexibilidade. Isso é resultado das grandes forças aerodinâmicas as quais um carro de F1 é submetido e pelo próprio processo de fabricação. A carroceria de um F1 atual é basicamente feita de fibra de carbono, material extremamente leve e resistente.
O grande macete das equipes é encontrar a melhor forma de combinar estas fibras para obter menor peso e aproveitar sua natureza flexível, indo no limite regulamentar para conseguir mais velocidade. Atualmente, os testes são feitos com os carros parados e são aplicadas certas forças para a verificação. Por exemplo: a parte mais elevada do aerofólio traseiro não pode flexionar mais do que 7 mm quando aplicada uma carga de 500 N (Newtons). Já o flap da asa dianteira não pode oscilar mais do que 5 mm sob uma carga de 60 N.
Quando Toto Wolff e Lewis Hamilton chamaram a atenção para a asa um tanto quanto “flexível”, a reclamação soou como a chamada sobre algo que já se sabia. E uma briga de bastidores começou, com a Mercedes ameaçando reclamar da Red Bull e os taurinos chamando a atenção para a asa dianteira das “Panteras Negras”.
Em meio ao chumbo trocado, a FIA lançou mão dos detalhes do regulamento e lançou uma diretriz técnica que vai tornar os testes de flexibilidade mais rígidos, incluindo a possibilidade do uso de imagens de vídeo e a marcação nos carros para referência após o GP do Azerbaijão. Isso gerou mais polêmica, passando pela frieza dissimulada de Helmut Marko, a ameaça de impugnação de Toto Wolff e a placidez de Mattia Binotto, declarando que teria que mudar o projeto de sua asa traseira.
O ganho de desempenho existe? Sim. Mas mensurar este ganho pode ser relativo. Fazendo um paralelo, é como a Mercedes e o DAS no ano passado. Só que a competitividade é tão grande que qualquer item que melhore o desempenho deve ser considerado. E se tem algo que os engenheiros da F1 sabem, é ir além das entrelinhas da letra fria da lei para chegar na frente.















