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Pincigher: o carro que dava tontura e outras histórias das pistas de testes

Sergio Quintanilha

Sergio Quintanilha

14 de maio de 2025 · 9 min de leitura

Lá no meu início de carreira, atuei por alguns anos na revista Quatro Rodas, onde compunha a equipe da “área técnica”. Eram jornalistas que testavam os carros na pista de testes e escreviam as reportagens. Tive sorte. Logo que ingressei na revista, como um jovem recém-formado da faculdade de Jornalismo, a vaga que surgiu foi nessa equipe que testava os carros. E era o que eu queria.

Há histórias curiosas nesse período. Tudo estava em ebulição. Eu começava a testar alguns carros que passavam de 200 km/h, o que era emocionante por si só – besteira dizer que você não se empolga na hora de medir os carros mais velozes. Claro que era diferente!

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Nesse início dos anos 90, além dessa “empolgação”, estavam chegando várias marcas e novos modelos ao país, além de tecnologias que estreavam nas fabricantes nacionais, como injeção eletrônica single-point ou multipoint, cabeçotes com 4 válvulas por cilindro, freios com ABS. E eu lá, acelerando na pista e vivenciando coisas, às vezes, engraçadas.

O mistério da máxima do Fiat Tempra

Essa história inaugural, que é totalmente verídica, aconteceu em 1993. Foi o dia que um outro repórter, que também era “testador de carros” se mijou todo em um teste de velocidade máxima do Fiat Tempra 16V.

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Uma grande preocupação na área de testes era a possível discrepância de habilidade entre os pilotos. Fazíamos aferições de tempos em tempos para verificar essa possível diferença e, se houvesse, trabalhávamos para acertar o pé dos mais lentos.

Aproveito para explicar uma dúvida que rolava desde aquela época: “por que os números da revista eram piores do que os das fábricas?”. Eram dois motivos. As fabricantes instaladas no Brasil mediam seus carros ao nível do mar, onde a pressão atmosférica é maior e, por isso, os motores proporcionavam melhor desempenho. Quatro Rodas fazia o teste em uma pista que estava a 600 metros de altitude.

Além disso, o padrão da revista era fazer o teste de aceleração aliviando o pé do pedal nas trocas de marchas – como qualquer motorista faz no uso cotidiano. Em um carro que fizesse 0 a 100 km/h em 10 segundos, por exemplo, você ganharia cerca de seis ou sete décimos se fizesse o teste de pé trancado – sem tirá-lo do acelerador. Já as fabricantes esqueciam o pé do piloto lá no assoalho…

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Eis que a Fiat lança a versão 16V do Fiat Tempra, em meados de 1993. O carro foi pra capa da revista e estampou a velocidade máxima na chamada: 198 km/h. Logo no mês seguinte, a reunião de pauta sugeriu reprise, mas desta vez em um comparativo com o Chevrolet Omega CD. Eram os dois sedãs nacionais mais sofisticados, luxuosos e velozes da época. Nós nem devolvemos o Tempra à Fiat e ficamos com ele até o mês seguinte.

Fui escalado para fazer o comparativo. Àquela época, a Quatro Rodas realizava os testes de velocidade máxima na pista de taxiamento do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP). Ela tinha cerca de 3,4 km e era mais do que suficiente para aferir a máxima dos carros.

Fui pra pista. Chegava ao final da reta, uns 150 metros antes da cabeceira, e você freava. Só que não vinha nada além de 192 km/h no Tempra. Lembrando: era o mesmo Tempra que fizera 198 km/h no mês anterior. Avisei o colega que havia testado no mês anterior, ele veio me encontrar, repetiu o teste e fez o mesmo número que eu. Fizemos um check-up no carro. Nada. Concluímos que tinha havido um erro de aferição no aparelho. Na dúvida, dias depois, foi toda a equipe pra pista a fim de fazer um tira-teima. E todo mundo bateu os mesmos 192 km/h.

Só que um dos testadores, um jovem que acabara de entrar na equipe, resolve abusar. Sei lá, o moço quis dar “demonstração de perícia”, quando o que importava era o oposto, ou seja, a isonomia nos resultados de todos os jornalistas-testadores. E o rapaz vai e freia lá dentro, mas lá dentro mesmo, uns 80 metros à frente do que regulamentávamos como padrão. Quase na cabeceira da pista. Ali, tio, ou você sobe no pedal de freio… ou puxa o manche e decola…

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Quando ele para o carro, seu semblante tem o olhar orgulhoso de quem “bateu” os números dos amiguinhos. Mas havia algo errado. Ele entrega a fitinha do computador que apontava o “excepcional” resultado de 192,4 km/h… e sai correndo. Entra no saguão do aeroporto e desaparece. Alguém ainda brincou: “ele deve ter se cag… todo pra chegar nesse número”. Não era exatamente isso. Mas quase. O rapaz volta com as calças molhadas, com aquela indesejável mancha bem na região da virilha. É. Fez 0,4 km/h a mais. Mas se mijou inteiro.

Eu voltei pra São Paulo guiando o Omega CD, lógico. Ele voltou de Tempra.

O Escort Cosworth que dava tontura

Em meio às novidades surgidas na primeira metade dos anos 90, com a reabertura dos importados, havia um segmento de carros que me despertava enorme atenção à época: os modelos de rua que serviam para homologar representantes do Campeonato Mundial de Rali. Eram o Subaru Impreza 555 (só seriam nomeados como WRX em 1995 ou 1996), o Toyota Celica GT-Four e… o Ford Escort RS Cosworth.

Três unidades do Cosworth foram importadas ao Brasil para serem usadas pela própria marca como pace car da Fórmula Ford. O carro tinha motor 2 litros turbo com 220 cv, tração integral e relações bem curtas de câmbio e diferencial, como convém a modelos que competem nessa categoria. Você dificilmente passará dos 200 km/h numa prova de rali. O importante era chegar rápido a essa velocidade. E ele chegava.

A maior característica desse carro era a asa dupla na traseira, mostrando que o importante era o downforce (forçar aerodinamicamente a traseira para baixo, ganhando em aderência), e não a velocidade máxima.

Fazia 0 a 100 km/h em 6s4, em uma época que a nossa referência de esportivo da marca, o Escort XR3, mal conseguia baixar de 10h50. E mesmo um vitaminado Honda Civic VTi cumpria a prova em cerca de 7s5. Não havia um carro médio tão bruto como aquele Escort, principalmente porque a tração nas quatro rodas evitava que ele arrancasse girando os pneus em falso. Lembro de ter testado várias rotações para arrancar, até conseguir os melhores tempos no 0 a 100 km/h. E foi por ali, mesmo, na casa dos 6 segundos.

Era uma estupidez o que aquele Escort fazia de curvas, mérito da tração integral e da suspensão independente nas quatro rodas. Era o carro que eu gostaria de ter para fazer aquelas provas de subidas de montanha, sabe? O Cosworth se destacava pelo 3G. Não, nada de conectividade. Nem existia nada parecido à época. Mas porque ele arrancava com 1g de aceleração, freava com mais um 1g e tinha também 1g de aceleração lateral…

No dia de fazer o teste de velocidade máxima, em Viracopos, o Ricardo Dilser estava me auxiliando. Nós nos ajudávamos. Quando ele ia acelerar os carros do teste dele, eu acertava o cone de referência para frenagem. E vice e versa. O Cosworth nem era tão veloz. Fazia cerca de 220 km/h.

Mas o Rica errou a posição do cone de frenagem no final da pista. Era pra estar 200 metros de onde terminava o asfalto. Ele pôs o cone nos 100 metros. Eu vinha a 220 km/h e o cone não chegava. E não chegava. Quando chegou… acabou a pista. Levantei do banco pra frear. E a desaceleração (sem dar fading) foi tão poderosa que deu até tontura. O carro parou. Aliás, parou fácil, bem distante ainda do final do asfalto.

(Aqui eu me concedo um aparte, que está totalmente relacionado a esse tema: ao longo da minha carreira, eu entrevistei cerca de dez ou doze pilotos de F1 em pautas variadas. A todos fiz a mesma pergunta. E, de todos, recebi a mesma resposta: “o que mais te impressionou quando você andou de F1 pela primeira vez?” Ayrton, Nelson, Emerson, Rubinho, Gugelmin, Tarso, Christian, Raul… todos disseram: os freios.

Nada é igual a um F1 como a potência do sistema de freios. Os carros de competição não precisam ter a mesma durabilidade do conjunto discos, pastilhas, cilindros de roda e outros itens como os de rua. Por isso você tem freios tão mais eficientes nos carros de pista. E não só nos monopostos de F1, mas também nos de rali, tal qual era esse Cosworth.)

A tática era a seguinte: o final da pista de Viracopos dava naquele xadrez característico das cabeceiras de pistas de aeroportos – você tinha que evitar esse xadrez com o carro de teste por razões óbvias. Ou você conseguia frear em linha reta ou aliviava o pé do freio e contornava a curva que levava à pista principal. Como a pista era beeeeeeem larga, você vinha bem aberto no teste de máxima e tangenciava a curva de final de reta caso desse algum problema nos freios – dava pra fazer a 130 ou 140 km/h.

Com o Escort, quando finalmente vi o cone, fiz tanta força pra frear, mas tanta, que me deu tontura em razão da força G de desaceleração e até deixei o motor morrer, pois o carro parou completamente com a quinta marcha engatada. E ainda restavam 20-25 metros de pista.

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