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Indústria

Carros inteligentes têm futuro ameaçado por alta de até 450% no preço dos chips de IA

Até 2030 investimento em inteligência artificial no setor automotivo subirá para R$ 360 bilhões anuais: preços dos chips podem subir até 450%

Carros inteligentes têm futuro ameaçado por alta de até 450% no preço dos chips de IA

As gigantes automotivas investirão US$ 30 bilhões (o equivalente a mais de R$ 150 bilhões) em inteligência artificial (IA), só neste ano. Até 2035, esta cifra que subirá para US$ 70 bilhões (quase R$ 360 bilhões e quatro vezes a capitalização de mercado atual da Stellantis e todas suas marcas), com um crescimento anual entre 15% e 22%, segundo projeções da PricewaterhouseCoopers (PwC), uma das maiores consultorias societárias e de negócios do mundo.

Os novos titãs chineses seguem à frente das companhias ocidentais, tanto na implantação e expansão da IA voltada para a experiência do consumidor, dentro dos veículos, como na integração de softwares e na aceleração dos ciclos de desenvolvimento. Mas europeus e norte-americanos não querem e nem podem ficar para trás, seja na indústria ou no varejo. O problema é que uma enorme bolha está se formando no setor e estima-se que, nos próximos três anos, apenas 5% das velhas montadoras atingirão as metas ambiciosas que estabeleceram num momento de euforia.

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“A expectativa em torno da inteligência artificial vem crescendo há anos, mas, agora, a indústria avalia onde ela é realmente imprescindível e, o mais importante, onde o julgamento humano é insubstituível. Os benefícios do uso da IA ficam cada vez mais claros, bem como suas limitações”, pontua o vice-presidente de pesquisas da consultoria de negócios e tecnologia Gartner, Pedro Pacheco. “Software e dados são os pilares da IA e só as empresas com maturidade nessas áreas terão vantagem natural. Sem bases de software sólidas e um foco de longo prazo na IA, não há como alcançar um valor disruptivo”, adverte Pacheco.

Enquanto questões relacionadas à segurança cibernética e ao impacto na força de trabalho dominam o noticiário, mesmo longe de serem resolvidas, uma verdadeira corrida está em curso. “Certo é que nos próximos três a cinco anos, os líderes em inteligência artificial se destacarão dos ‘retardatários’”, prevê Pacheco.

A Tesla, por exemplo, aportou US$ 6 bilhões (R$ 30,5 bilhões) em infraestrutura de IA, num único trimestre, só para os desenvolvimentos de seu robô humanoide Optimus e do seu recém-lançado Cybercab. E mesmo em profunda reestruturação, a Volkswagen manterá o investimento infraestrutural de US$ 1,1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) nos próximos quatro anos. Apesar da proatividade, ambas estão sob ameaça do boom dos data centers, que inflacionará os preços dos chips de memória dinâmica de acesso aleatório (DRAM), um tipo específico de semicondutor, que podem subir entre 100% e 450%.

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Estima-se que, para um grande fabricante ocidental que gasta US$ 2 bilhões (quase R$ 10,5 bilhões) anuais em transformação digital e integração de IA, um estouro prematuro da bolha representaria perdas de US$ 400 milhões a US$ 600 milhões (de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões) só em licenciamento de softwares, cancelamento de implementações de automação e custos indiretos dos projetos abortados.

Acorrentados a chatbots

O problema aqui é que, por mais exagerado que seja o receio de estouro da bolha automotiva de IA, não há espaço para as marcas ocidentais recuarem. “Os antigos fabricantes estão acorrentados em uma posição desconfortável, porque temem e não têm como gastar mais com essa ‘corrida do ouro’ da IA, ao mesmo tempo em que vivem o risco de, abandonando a disputa, se tornarem completamente irrelevantes”, pontua o fundador e CEO da consultoria estratégica e de mercado Automobily Limited, com sede em Xangai, Bill Russo.

Enquanto isso, titãs chineses como BYD e Geely já integram inteligência artificial avançada em “dark factories” (manufatura totalmente automatizada, sem operários humanos e com linhas que operam no escuro) e arquiteturas de software centralizadas.

As novas marcas chinesas se consolidam, de fato, como empresas de tecnologia com recursos ilimitados, ao passo que as velhas montadoras ocidentais se veem presas a chatbots que, mesmo sendo adotados por 80% de seus concessionários, não conseguem aumentar o lucro das operações de mais do que 20% da rede.

A PwC entrevistou quase 4.500 diretores e presidentes-executivos (CEOs) dos setores mais relevantes da indústria e comércio mundiais sobre a implementação da IA, num recorte empresarial de US$ 40 bilhões (o equivalente a R$ 205 bilhões), e menos de 1/3 deles reportou aumento de receita diretamente proveniente do uso da inteligência artificial. No mesmo sentido, pouco mais de 25% confirmaram redução de custos e mais da metade (56%) disse não ter obtido benefícios nem em termos de receita, nem de redução de custos.

“De fato, a maioria das pessoas imagina, equivocadamente, a IA embarcada como um chatbot que conversa com o motorista por meio do sistema de infotainment ou um assistente de voz que encontra restaurantes e hospedagens”, comenta o vice-presidente da Sonatus, desenvolvedor de softwares automotivos do Vale do Silício, Alexandre Corjon. Para as novas gigantes chinesas funcionam assim mesmo: a inteligência artificial integra funções monetizadas, imediatamente, enquanto as velhas marcas ocidentais tentam inflar o valor das suas ações com especulações e promessas distantes.

Na China, a IA é aplicada na aceleração nos tempos de desenvolvimento e na redução dos custos de engenharia, na diminuição de etapas para diagnose e na prevenção de ações desnecessárias. “Basicamente, a transformação de dados em elementos para validação”, pontua Corjon. Já os antigos fabricantes europeus e norte-americanos a veem como uma aposta financeira especulativa.

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Robotização e chips

Os sistemas avançados de assistência (ADAS) e os veículos autônomos (AVs) concentram a maior parte dos gastos do setor com IA, representando algo entre 45% e 55% dos valores. Linhas de produção automatizadas por inteligência artificial, a chamada manufatura inteligente, também estão na mira de pelo menos 25 grandes montadoras, com previsão para a robotização completa a partir de 2030 – será?

Na produção, muitas montadoras utilizam IA em sistemas cada vez mais confiáveis para detecção de defeitos como arranhões ou riscos. “Hoje, usa-se a inteligência artificial como um martelo à procura de um prego e os fabricantes têm se contentado em falhar rápido, para descartá-la se não forem bem-sucedidos”, comenta o vice-presidente de manufatura da Nissan norte-americana, Victor Taylor.

O fato de a IA não ser mais uma assistente e, a partir de agora, assumir responsabilidades que antes eram exclusivas dos humanos, é que desponta como divisor de águas, no momento em que as antigas montadoras ocidentais encaram uma uma janela de oportunidade cada vez menor para redesenhar seus sistemas e garantir o fornecimento. “Os três maiores fabricantes de chips DRAM, que são a Samsung, a SK Hynix e a Micron Technology, estão priorizando o segmento de data centers, que é mais lucrativo, em detrimento das aplicações automotivas”, relata o analista da consultoria S&P Global Mobility, Matthew Beecham.

Visteon e a Aumovio são especialmente vulneráveis, dentre os fornecedores de Tesla, Ford e General Motors. E nunca é demais lembrar, que a crise dos semicondutores custou às velhas montadoras a produção de milhões de veículos durante a pandemia da Covid-19. Mais recentemente, a Honda teve que paralisar sua produção devido a interrupções relacionadas à Nexperia, fabricante chinês de chips que foi pivô de um imbróglio judicial na Holanda – o neoliberalismo ao estilo Cia. das Índias Ocidentais expropriou uma empresa privada e a “concedeu” a um terceirizado do governo holandês.

Em contrapartida, os novos titãs chineses se beneficiam do impulso nacional do país em IA, usando inteligência artificial doméstica e chips personalizados tanto para ofertar recursos veiculares avançados quanto para novas fontes de receita – entre 2009 e 2023, período de 1/5 de século, o governo central de Pequim investiu entre US$ 230 bilhões e US$ 313 bilhões (entre quase R$ 1,15 trilhão e mais de R$ 1,6 trilhão) no setor e, nas províncias, há subsídios de 30% para chips de IA nacionais e descontos de até 50% no custo da eletricidade para grandes centros de dados.

Distribuição e chão de fábrica

Nos EUA, do outro lado do mundo, houve um aumento de 1.000% em todas as capacidades que os distribuidores norte-americanos oferecem, só nos últimos 12 meses. Oito de cada dez revendedores autorizados já usam IA de alguma forma, automatizando tarefas rotineiras, dando seguimento ao contato com os clientes e produzindo conteúdo. A IA também ajuda na aquisição de estoque, na redução do tempo gasto em tarefas rotineiras e no aprimoramento de estratégias de marketing, mas nem todos os revendedores dizem ter percebido benefícios imediatos das ferramentas de inteligência artificial.

“Quase 70% dos concessionários esperavam que a IA ajudasse a aumentar as vendas e, consequentemente, suas receitas, mas apenas 22% disseram que isso aconteceu na prática”, conta a diretora de soluções para varejo da Cox Automotive, desenvolvedora do Autotrader, Lori Wittman. Lá, também há quem ache que a inteligência artificial jamais substituirá o contato humano num “negócio de pessoas”. Isso é o que pensa a diretora de comunicação e inteligência de negócios da Nissan norte-americana, Shelley Pratt:

“Nosso departamento de marketing desenvolveu chatbots com inteligência artificial para responder perguntas dos clientes, antes de eles irem a uma concessionária. Isso resultou em compradores mais objetivos, que chegam no revendedor sabendo exatamente qual modelo desejam ver, mas o comércio exige uma humanização, assim que o cliente entra no salão”, avalia Shelley.

No “chão de fábrica”, o impacto da inteligência artificial se dá mais pela controvérsia do que, propriamente, pela substituição da força de trabalho humana. “Acho que, em alguma proporção, isso vai acontecer, mas ainda é incerto quanto tempo levará”, reflete o diretor da consultoria de gestão AlixPartners, Shea Burns. Os robôs humanoides de última geração já são até 70% mais baratos do que trabalhadores humanos para as montadoras, incluindo salários, benefícios, impostos e seguros – o custo por hora pode ser reduzido em mais de 70%, de US$ 50 (R$ 255) para até US$ 12 (menos de R$ 65).

Olhando para o futuro de curto e médio prazos, há um ponto em que China e ocidente convergem: o setor automotivo já ultrapassou a fase inicial de investimentos, bem como o entusiasmo desenfreado em torno da inteligência artificial ficou para trás. A realidade começa a se impor e, agora, a busca é por um equilíbrio entre o risco de estouro de uma bolha de IA e seus benefícios. Neste momento, as novas gigantes chinesas enfrentam menos riscos, porque têm aplicações práticas e comerciais a tecnologia, enquanto as velhas marcas ocidentais, mergulhadas na financeirização, apostam na especulação. É esperar para ver!

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